NOTA TÉCNICA

 

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Demanda por UTIs em Mato Grosso em decorrência da pandemia da Covid-19: situação e projeção para as macrorregiões de saúde

Autores

Ana Paula Muraro a
Emerson Soares dos Santos b
Ligia Regina de Oliveira a
Moiseis dos Santos Cecconello c 
Ruan Carlos Ramos da Silva d

Junho de 2020
a Instituto de Saúde Coletiva
b Departamento de Geografia
c Departamento de Matemática
d Laboratório de Geotecnologias - IFMT

Resumo

Até 20 de junho de 2020, após 93 dias do primeiro caso confirmado de COVID-19 em Mato Grosso, o estado registra acelerado aumento do número de casos, internações e óbitos pela doença. Para o atendimento dos casos mais graves da doença, o Plano de Contingência do Estado de Mato Grosso considera os leitos exclusivos COVID-19 pactuados em hospitais estaduais e de referência regional nas seis Macrorregiões de Saúde. Esta nota tem como objetivo apresentar a oferta e distribuição de leitos clínicos e de UTI para atendimento aos casos de COVID-19 em Mato Grosso, segundo macrorregiões de saúde e realizar projeções para evolução da dinâmica da doença para essas macrorregiões e, consequente demanda por leitos de UTI. Avaliou-se, para o estado e macrorregiões, o panorama dos casos de COVID-19, a letalidade e a taxa de reprodução do vírus, bem como a disponibilidade de leitos clínicos e de UTI exclusivos. As projeções e estimativas de número de infectados por Macrorregiões de Saúde foram realizadas para o período de 21 de junho a 02 de agosto de 2020. Para isso foram utilizados o modelo matemático SIR, com parâmetros baseados na série histórica de casos notificados (20 de março a 20 de junho). Embora todas as macrorregiões de saúde possuam leitos de UTI exclusivos para casos de COVID-19, estes estão distribuídos em apenas nove dos 141 municípios do estado, com grandes diferenças na possibilidade de acesso a esse tipo de leito. Apesar de apenas a Macrorregião Oeste apresentar-se com os leitos saturados no dia 20 de junho, já foi observado a ocupação de 100% dos leitos nas demais desde maio, com exceção da Norte, o que implica que a demanda não atendida nos hospitais de referência dessas macrorregiões provavelmente tem sido regulada para hospitais da Macrorregião Centro Norte, onde encontra-se Cuiabá e Várzea Grande. A partir da projeção de casos, estimou-se que em 30 de junho a oferta de leitos de UTI para COVID-19 estará esgotada em Mato Grosso, que neste momento apresenta uma curva ascendente de casos. Se não houver o incremento desse tipo de leito no estado ou diminuição do número de casos da doença, o sistema não atenderá a demanda a partir desta data. Exceto para a Macrorregião Centro Norte, a indisponibilidade de leitos já é uma realidade considerando a estimativa de casos. A resposta aos casos graves na oferta de leitos suficientes é urgente e cabe ao poder público, seja no incremento desses considerando uma melhor distribuição geográfica ou na organização dos fluxos de atendimento.

Destaques

  • A partir da projeção de casos, estimou-se que em 30 de junho a oferta de leitos de UTI para COVID-19 estará esgotada em Mato Grosso;
  • Exceto para Macrorregião Centro Norte, a indisponibilidade de leitos já é uma realidade, e esta situação tende a se agravar com o crescimento exponencial de casos;
  • A data estimada para ocupação de 100% dos leitos da Macrorregião Centro Norte (27 de julho), será antecipada uma vez que receberá a demanda não atendida nas demais regiões;
  • Mato Grosso mantém curva ascendente de casos novos, com taxa de reprodução (R0) 1,61. Existem diferenças regionais, sendo a Centro Noroeste a que apresenta maior velocidade de transmissão (2,06), e Oeste a que tem a menor velocidade (1,36). Todas as macrorregiões estão em ritmo crescente do número de casos, com R0 maiores que 1;
  • Os leitos de UTI exclusivos para casos de COVID-19 estão distribuídos de maneira desigual no estado: em apenas nove dos 141 municípios, com grandes distâncias entre sedes municipais e uma cidade com UTI disponível, principalmente nas macrorregiões Leste e Centro Noroeste;
  • Apenas Macrorregião Oeste estava com os leitos saturados no dia 20 de junho, entretanto, já ocorreu a ocupação de 100% dos leitos nas demais regiões desde maio, com exceção da Norte e Centro Norte;

Introdução

Em 30 de janeiro de 2020 a Organização Mundial da Saúde emitiu a declaração de Emergência em Saúde Pública de Importância Internacional devido à disseminação do novo coronavírus (SARs-Cov2) no mundo.

Em 24 de abril a Secretaria de Estado da Saúde de Mato Grosso instituiu o Plano de Contingência Estadual para infecção humana pelo coronavírus COVID-19 que estabeleceu os níveis e organização de resposta (preparação e emergência) à pandemia, além de estratégias de vigilância e monitoramento. Durante estes meses, diversos decretos e normas foram instituídas visando o controle da doença no estado e, principalmente, organizar a rede de serviços de saúde para o atendimento aos casos suspeitos e confirmados da COVID-19.

Contudo, após 93 dias do primeiro caso confirmado de COVID-19, Mato Grosso registra 9.262 casos confirmados e 967 amostras em análise no Laboratório Central do estado (LACEN). Dos casos confirmados, 9.175 são residentes em 126 municípios do estado; há apenas 15 municípios sem casos confirmados em 20 de junho. Um mês após o primeiro caso notificado, o estado registrava 181 casos, sessenta dias depois 1.090 casos, em noventa dias 7.284 casos confirmados, evidenciando o crescimento exponencial do número de casos no estado1.

O primeiro óbito foi registrado em 03 de abril quando o estado tinha 44 casos confirmado de COVID-19 (letalidade = 4,0%). Em 20 de junho o estado alcançou o número de 341 óbitos, sendo 335 entre residentes em 60 municípios, com letalidade 3,6%.

Em julho de 2018, a Comissão de Intergestores Bipartite – Mato Grosso estabeleceu a conformação das 16 regiões de saúde em seis macrorregiões (Resolução CIB/MT 57 de 26 julho de 2018)2. Macrorregião de Saúde corresponde ao espaço regional ampliado, composto por uma ou mais regiões, e seus respectivos municípios. O principal objetivo dessa nova conformação seria o de organizar a atenção à saúde de maneira que atenda à população em todos os níveis de atenção: primário, secundário e terciário, especialmente para atender às lacunas existentes em diversas regiões de saúde no que se refere à atenção terciária, já que muitas dessas regiões se mostravam não resolutivas. Desta maneira, a macrorregião conforma e materializa a Rede de Atenção à Saúde (RAS) que vai desde a Atenção Primária à Saúde (APS) até a atenção terciária, considerando questões de escala e governança, fortalecendo a organização das ações e dos serviços3,4. Especificamente para o atendimento dos pacientes com COVID-19, a sexta versão do Plano de Contingência do Estado de Mato Grosso atualiza os hospitais estaduais e de referência regional por Macrorregião de Saúde (Resolução CIB/MT Ad Referendum Nº 015 de 07 de maio de 2020)5.

Apesar desta Nota tratar da disponibilidade e demanda por leitos hospitalares e de UTI, ou seja, da capacidade instalada no nível mais complexo do sistema de saúde, destaca-se o papel de todos os níveis de atenção e das ações de vigilância epidemiológica para a prevenção da doença,  monitoramento e tratamento dos casos.  Vivenciamos um cenário no qual na inexistência de vacina e de tratamento para a COVID-19, o isolamento/distanciamento social, entre outras medidas, se faz potencialmente necessário para conter a disseminação do vírus e o colapso do sistema de saúde. Sob este aspecto, estudos recentes mostram que há heterogeneidade não apenas nas medidas governamentais, mas, sobretudo, na adesão da sociedade, fato que pode também de forma diversa induzir na maior ou menor disseminação do vírus e insuficiência na oferta de leitos.

Objetivo

Esta nota técnica tem como objetivo apresentar a oferta e distribuição de leitos clínicos e de UTI para atendimento aos casos de COVID-19 em Mato Grosso, segundo macrorregiões de saúde e realizar projeções para evolução da dinâmica da COVID-19 para essas macrorregiões e, consequente demanda por leitos de UTI.

Metodologia

Os resultados apresentados nesta Nota Técnica foram produzidos a partir de dados sobre a COVID-19 divulgados pela na Secretaria de Saúde do Estado de Mato Grosso1. Dados populacionais referem-se a estimativas para 2020 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD)6.

Considerou-se a composição das macrorregiões instituída na sexta versão do Plano de Contingência, em que a Região Centro Norte (município sede Diamantino) compõe a macrorregião Centro Norte e não a Centro Noroeste como instituído em 20182. Foram calculadas as taxas de incidência (por 100.000 habitantes) e letalidade (% de óbitos entre os casos confirmados) da COVID-19, além da taxa de leitos clínicos e de UTI pactuados (por 10.000 habitantes).

Para a análise da acessibilidade para unidades hospitalares que dispõem de UTI nas cidades e macrorregiões de saúde, foram consideradas as distâncias euclidianas entre cidades do estado, calculadas em Sistema de Informação Geográfica. Esta forma de cálculo mostra a distância em linha reta, fazendo com que os resultados apresentados estejam subestimados, ou seja, se fossem calculadas em função da malha rodoviária, as distâncias entre as cidades seriam maiores. Portanto, é presumível que os problemas de acesso a leitos de UTI apontados nesta nota são menores que os reais. 

As projeções e estimativas de número de infectados por Macrorregiões de Saúde foram realizadas para o período de 21 de junho a 02 de agosto de 2020. Para isso foram utilizados o modelo matemático SIR, um dos principais modelo para descrever a dinâmica de disseminação de doenças contagiosas. Os parâmetros do modelo foram obtidos com base em toda a série histórica de casos notificados (20 de março a 20 de junho) e os critérios matemáticos utilizados no modelo estão expostos em Cecconello (2020)7. A estimativa de leitos foi calculada a partir das projeções de casos e a proporção de internação em UTIs no estado entre 21 de maio e 20 de junho. Como não são disponibilizadas informações, pelas instituições às quais isto compete, sobre o número de residentes das macrorregiões internados em UTIs de gestão pública e privada, foi utilizada proporção do estado para o cálculo de cada macrorregião de saúde. 

O percentual de ocupação de leitos UTIs divulgados nos Boletins Informativos diários da Secretaria de Estado de Saúde inclui casos confirmados, suspeitos e descartados  de COVID-19. Tal fato impossibilita o cálculo da proporção exata diária de pessoas com COVID-19 internados em UTIs. Devido a isso, o percentual de internações em UTI foi estimado como um intervalo. O limite inferior foi calculado tendo no numerador somente os casos confirmados de COVID-19 em UTI e no denominador o número de casos ativos do dia no estado. O limite superior foi calculado considerando como numerador o total de pessoas internadas em UTI (incluindo casos ainda não confirmados) e no denominador a soma de casos ativos e pessoas internadas ainda sem confirmação para COVID-19.

Foi considerado o número de leitos de UTI pactuados no Sistema Único de Saúde (SUS) para a estimativa da ocupação dos leitos públicos a partir da projeção de casos. Entretanto, em 21 de maio verificou-se que 37% dos pacientes confirmados de COVID-19 internados em UTI estavam em leitos da rede privada, essa proporção passou para 24% em 20 de junho, ou seja, com o aumento do número de casos, a participação de internações na rede privada diminuiu entre os internados com COVID-19. Uma vez que a regulação de casos ainda não considera a contratação de leitos privados, para a estimativa do número de casos que necessitarão de internação em UTI no SUS foi considerada também a proporção da população com planos privados de saúde no estado de Mato Grosso em março de 2020, a partir de dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar8. Em Mato Grosso, 16,3% da população possuem planos privados de saúde, com grandes variações entre as macrorregiões: Centro Noroeste (9,9%), Centro Norte (26,2%), Leste (7,9%), Norte (12,8%), Oeste (8,6%) e Sul (16,5%). Quando subtraído essa proporção do número estimado de pacientes de COVID-19 que necessitariam de leitos de UTI, observou-se que a curva fica dentro do estimado até o limite inferior, portanto, decidiu-se por não fazer esta discriminação nos resultados.

Panorama das Macrorregiões

A incidência de COVID-19 em Mato Grosso em 20 de junho de 2020 era de aproximadamente 260 casos por 100 mil habitantes. A Macrorregião Sul, constituída por 19 municípios e com 15% da população do estado, apresentou a maior incidência com 566,41 casos por 100.000 habitantes, seguido da Centro Norte, que abrange 30% da população do estado e contempla a capital (321,02 casos por 100.000 hab.). As macrorregiões Centro Norte e Oeste apresentaram as maiores taxas de letalidade com aproximadamente 5 óbitos para cada 100 casos confirmados. A transmissão do vírus tem ritmos diferentes nas macrorregiões de saúde do estado, sendo atualmente a Centro Noroeste aquela com maior velocidade de aumento de casos e a Oeste a que tem a menor velocidade. É de se destacar que nenhuma macrorregião de saúde está vivenciando momento de diminuição de casos novos diários, visto que todas tem R0 maiores que 1 (Tabela 1).

Tabela 1: Casos, óbitos, Taxa de incidência, Taxa de letalidade por COVID-19, segundo macrorregiões. Mato Grosso, 20 de junho de 2020.

Oferta de Leitos

Em 20 de junho, Mato Grosso dispunha de 818 leitos clínicos, 241 leitos de UTI adulto e 15 UTI pediátrico, o que indica uma relação de 2,32 leitos/10.000 habitantes e 0,73 leitos de UTI/10.000 habitantes. A despeito da baixa oferta de leitos no estado, o cenário regional, nesta Nota apresentado pelas macrorregiões de saúde, aponta para considerável diferença entre estas.

A Macrorregião Centro Norte (da qual Cuiabá faz parte) apresenta a maior oferta de leitos clínicos por habitante (4,77/10.000) bem como de leitos de UTI (1,72/10.000). Contudo, na Região Leste existe apenas 0,06 leito/10.000 habitantes, para as demais macrorregiões o número de leitos/habitante varia entre 1,31 e 1,70/10.000 hab. Em relação aos leitos de UTI, a região Centro Noroeste é a que possui a menor oferta (0,13 leitos/10.000 hab.), o crescimento acelerado da transmissibilidade da doença nessa macrorregião agrava ainda mais esse quadro. Porém para as demais, exceto Centro Norte, a oferta também é baixa (0,13 a 0,29) (Tabela 2).

 

Tabela 2. Distribuição de leitos clínicos e de UTI exclusivos para COVID-19*, segundo macrorregiões de saúde. Mato Grosso, 20 de junho de 2020.

 Os leitos clínicos estão distribuídos em 13 municípios do estado. Destaca-se que leitos clínicos são para a internação de pacientes com sintomas respiratórios de baixa complexidade, podendo haver suporte ventilatório não invasivo para o caso de piora do quadro respiratório, portanto, sua disponibilidade é importante para a estabilização do paciente até o remanejamento para unidade de referência hospitalar que possuam leitos de UTI para COVID-19, caso seja necessário.

Apesar de todas as macrorregiões de saúde possuírem leitos de UTI, esses estão distribuídos em apenas nove dos 141 municípios do estado. A Macrorregião Centro Noroeste, que abrange 17 municípios, todos com registro de casos de COVID-19, possui seis leitos de UTI em um único município (Juína); na Centro Norte os leitos de UTI estão localizados em Cuiabá (130) e Várzea Grande (42); a Leste, que contempla 30 municípios, conta com apenas oito leitos de UTI em Barra do Bugres; a Norte, que abrange 35 municípios e a maior em extensão territorial, tem leitos de UTI nas cidades de Alta Floresta (1), Sinop (20) e Sorriso (2); a Oeste conta com oito leitos de UTI em Cáceres e a Macrorregião Sul com nove leitos em Rondonópolis (Figura 1).

Figura 1: Localização dos leitos de UTI exclusivos para COVID-19, segundo macrorregiões de saúde. Mato Grosso, 20 de junho de 2020.

Acessibilidade

No estado, assim como nas macrorregiões de saúde, existem grandes diferenças na possibilidade de acesso a leitos de UTI pública exclusivos para casos de COVID-19. As menores distâncias entre sedes municipais e uma cidade com UTI disponível são encontradas na Macrorregião Norte onde variam de 0 a 220 quilômetros, pois existem três municípios (Sinop, Sorriso e Alta Floresta) com tais instalações (Figura 2). Porém, 86,9% das UTIs estão na cidade de Sinop (20 de 23), e esta concentração certamente provoca plena ocupação nas outras duas cidades em pouco espaço de tempo. 
A Macrorregião Centro Norte tem distâncias que variam de 0 a 300 quilômetros, mas trata-se de uma área em que há grande contingente populacional, já que é onde se localiza a capital. As UTIs exclusivas para COVID-19 estão em Cuiabá (N=130) e Várzea Grande (N=42). Apesar de ter, relativamente, grande número de leitos de UTI, os mesmos podem ser ocupados em qualquer momento por pessoas de outras macrorregiões do estado que têm seus leitos totalmente ocupados. 
Na Macrorregião Leste, onde existem oito leitos de UTI, mais da metade (16/30; 53,3%) das sedes municipais estão a uma distância maior que 300 quilômetros de Barra do Garças, onde há disponibilidade de leitos de UTI, mas algumas sedes estão a mais de 600 quilômetros.
Na Macrorregião Centro Noroeste, onde é constatada a maior velocidade de contágio da doença, mais da metade (9/17; 52,9%) das sedes de municípios estão a mais de 250 quilômetros de uma unidade hospitalar com UTI. Nas macrorregiões Sul e Oeste, mais da metade das sedes municipais estão a menos de 100 quilômetros de UTIs, mas no caso da Oeste, há cidades com mais 350 quilômetros de distância. Já na Sul, as distâncias são menores (máximo de 220 quilômetros).
A distinta oferta de leitos para COVID-19 no estado, demonstra não apenas a não organização dos serviços para o atendimento regionalizado como preconizado, mas, e ainda mais relevante, o colapso de todo o sistema, visto a necessidade de deslocamento dos pacientes por grandes distâncias podendo acarretar a piora do quadro clínico ou mesmo a morte em casos de maior gravidade.

Figura 2: Distância (km) entre sedes municipais até cidades com leitos de UTI exclusivos para COVID-19, segundo macrorregiões de saúde. Mato Grosso, 20 de junho de 2020.



Pelos dados publicados no Boletim Informativo COVID-19 em 20 de junho, a taxa de ocupação de leitos de enfermaria exclusivos para COVID-19 era de 23,0% e para UTI de 74,6%. Entretanto, essa taxa se mostra distinta entre as macrorregiões, particularmente no que se refere às taxas de ocupação de UTIs, apontando para uma situação crítica para algumas regiões – Oeste (100,00), Sul (85,2%) e Norte (82,6%) – e ainda reiterando a gravidade da doença e, consequentemente da necessidade de aumento na oferta de leitos de UTI.
Quanto a taxa de ocupação de leitos gerais (enfermaria) exclusivos para COVID-19, o cenário é menos preocupante, mesmo quando se considera todos os casos – confirmados, suspeitos e descartados. Com taxa de ocupação de 21,9% no estado, somente a Macrorregião Norte se destaca com percentual mais elevado (27,4%) e as demais variando de 13,7% a 24,4% (Tabela 3).

Tabela 3. Taxa de ocupação de leitos hospitalares (%) por casos de COVID-19, segundo macrorregiões. Mato Grosso, 20 de junho de 2020

Apesar de apenas a Macrorregião Oeste apresentar-se com os leitos saturados no dia 20 de junho, é importante destacar que entre 05 de junho (primeiro boletim informativo do estado com informação de ocupação de leitos de UTI em cada município) e 20 de junho já foram observadas saturação dos leitos de UTI nas outras macrorregiões, com exceção da Norte. Desde o dia 09 de junho a macrorregião Oeste tem 100% de ocupação dos cinco leitos de UTI pactuados; a Leste registrou capacidade máxima utilizada nos dias 05 de junho e entre 15 e 17 de junho; a Sul nos dias 10, 11 e 17 de junho também estava com todos os leitos ocupados; a Centro Noroeste em 13 de junho esteve com 100% dos leitos de UTI ocupados. Desta forma, a demanda não atendida nos hospitais de referência dessas macrorregiões provavelmente tem sido regulada para hospitais da Macrorregião Centro Norte.

Projeção de casos que demandarão leitos de UTIs

Em Mato Grosso, se a dinâmica de transmissão da doença se manter, a estimativa de casos de COVID-19 que necessitarão de leitos de UTI (1.187) até 02 de agosto mostra distintos comportamentos da curva de crescimento entre todas as macrorregiões. Crescimento mais acentuado está previsto para as macrorregiões Centro Noroeste e Norte (Figura 3), esta última já apresentando taxa de ocupação de leitos de UTI acima de 80% (Tabela 3).
Para a quase totalidade das macrorregiões de saúde a indisponibilidade de leitos já é uma realidade considerando a estimativa de casos para o período de 21 de junho a 02 de agosto (Figura 4). Exceto a Macrorregião Centro Norte, todas as demais já estão em situação crítica e tendem a se agravar com o crescimento exponencial de casos. Por outro lado, a oferta de leitos na Macrorregião Centro Norte atende a estimativa de casos prevista para essa macrorregião até 27 de julho. Contudo, com a insuficiência de leitos nas demais como já mencionado anteriormente, ocorre o encaminhamento de pacientes com COVID-19 para a unidades hospitalares localizadas nesta macrorregião, em especial para a capital, onde se concentra o maior número de leitos, levando ao provável déficit de leitos também nesta macrorregião antes da data prevista.
Entre as macrorregiões, a Centro Noroeste destaca-se com crescimento acentuado e, como citado anteriormente, é a macrorregião com menor disponibilidade de leitos de UTI exclusivos (0,13 leitos por 10.000 habitantes), desta forma, estima-se maior carência de leitos de UTI para atendimento ao número de casos previstos em todo o período, caso o crescimento do número de casos se mantenha nesse rítmo.

Figura 3: Estimativa do número de casos de COVID-19 que necessitarão de leitos de UTI em Mato Grosso e macrorregiões de saúde.


Na figura 5 é possível visualizar a estimativa de que em 30 de junho a oferta de leitos de UTI para COVID-19 estará esgotada em Mato Grosso, com curva crescente de casos, ou seja, o sistema não atenderá a demanda a partir desta data, se não houver o incremento desse tipo de leito no estado ou diminuição do número de casos da doença por medidas mais efetivas de controle da doença (Figura 5). Situação ainda mais crítica é estimada quando considerado o total de
pessoas internadas em UTI (incluindo casos ainda não confirmados), em que os leitos do estado podem estar saturadas em 25 de junho.

Figura 4: Estimativa do número de casos de COVID-19 que necessitarão de leitos de UTI e leitos pactuados*, em cada macrorregião de saúde. Mato Grosso, 20 de junho a 02 de agosto de 2020.

Figura 5: Estimativa do número de casos confirmados e suspeitos de COVID-19 que necessitarão de leitos de UTI, e leitos pactuados* Mato Grosso, 20 de junho a 02 de agosto de 2020.

Os resultados deste estudo basearam-se, em grande parte, em dados publicados pela Secretaria de Estado de Saúde, em geral de forma agregada, o que se caracteriza como limitação para cálculos mais precisos. A não disponibilidade de dados referente a taxa de ocupação de leitos privados, assim como a não disponibilização de dados sobre comorbidades, faixa etária e local de residência dos casos hospitalizados foram outras limitações encontradas tendo em vista que tais informações impactam no cálculo de pessoas no grupo de risco e em projeções sobre a possível utilização de leitos hospitalares gerais e de UTI. 
Nessa perspectiva, a disponibilização de microdados (dados relativos a cada caso) em base de dados para download é fundamental para a construção de um panorama mais preciso sobre o avanço do novo coronavírus.

Conclusões

Pelas estimativas, se a velocidade com que vem surgindo casos novos da doença não sofrer alterações, em poucos dias poderemos enfrentar o colapso do sistema público de saúde, com a impossibilidade de atender adequadamente casos graves de COVID-19. 

A flexibilização das medidas de distanciamento social contribui para a disseminação da doença, mantendo o número crescente de casos novos e óbitos. As consequências serão ainda mais devastadoras se os serviços de saúde não atenderem ao progressivo aumento da demanda caracterizada pelo crescimento exponencial do número de casos de COVID-19 em Mato Grosso e em suas macrorregiões.

Desta forma, na inexistência de vacina e tratamento farmacológico comprovadamente eficaz, a única maneira de se evitar o colapso do sistema e mortes são medidas de supressão da transmissão mais rígidas, até que seus efeitos sejam observados. Além disso, dado a dificuldade da ampliação do número de leitos de UTI no estado, principalmente no interior, torna-se imprescindível a utilização de leitos privados para expandir a oferta pelo Sistema Único de Saúde, com a implementação de uma fila única para casos graves da Covid-19.

A redução do número de casos, para além de nossas escolhas individuais, depende principalmente das políticas públicas adotadas. Desta maneira, a resposta aos casos graves na oferta de leitos suficientes para o atendimento da demanda cabe exclusivamente aos gestores, seja no incremento desses considerando uma melhor distribuição geográfica ou na organização dos fluxos de atendimento.

Referências

  1. Mato Grosso. Secretaria de Estado da Saúde. Boletim Informativo. Situação Epidemiológica SRAG e COVID-19. Disponível http://www.saude.mt.gov.br/informe/584. Acesso em 20 de abril de 2020.

  2. Mato Grosso. Comissão de Intergestores Bipartite. Resolução CIB MT no57 de 26 julho de 2018. Disponível http://www.saude.mt.gov.br/legislacao?origem=19&p=&num=57&mes=&ano=2018 Acesso em 13 de junho de 2020.

  3. Brasil. Comissão Intergestores Tripartite. Resolução CIT no37 de 22 de março de 2018 Disponível https://portalarquivos2.saude.gov.br/images/pdf/2018/marco/26/RESOLUCAO-N-37-DE-22-DE-MARCO-DE-2018.pdf. Acesso em 13 de junho de 2020.

  4. Ministério da Saúde; Conass; Conasems. Orientações Tripartite para o Planejamento Regional Integrado. Brasília, setembro, 2018 Disponível http://www.conass.org.br/guiainformacao/planejamento-regional-integrado/ .Acesso em 13 de junho de 2020.

  5. Mato Grosso. Comissão de Intergestores Bipartite. Resolução CIB/MT Ad Referendum no 15 de 07 de maio de 2020. Disponível http://www.saude.mt.gov.br/legislacao?origem=19&p=&num=15&mes=5&ano=2020. Acesso em 13 de junho de 2020.

  6. Freire FHMA. Projeção populacional municipal com estimadores bayesianos, Brasil 2010 - 2030. In: Sawyer, D.O (coord.). Seguridade Social Municipais. Projeto Brasil 3 Tempos. Secretaria Especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (SAE/SG/PR) , Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento Brasil (PNUD Brasil) e Centro Internacional de Políticas para o Crescimento Inclusivo (IPC-IG), 2019.

  7. Cecconello, MS. Evolução da Covid-19 no Brasil, Mato Grosso e Cuiabá. Nota Técnica. DepMat/ICET – UFMT: Cuiabá, 2020. Publicado em: maio de 2020b. Disponível em: <https://www.dropbox.com/s/w9m08dz7qvawgv9/Notatecnica.pdf?dl=0>

  8. ANS - Agência Nacional de Saúde Suplementar. Informações em Saúde Suplementar. Disponível em: http://www.ans.gov.br/anstabnet/. Acesso em 23 de junho de 2020.

Forma de citação:

Muraro AP, Santos ES, Oliveira LR, Ceconello MS, Silva RCR;. Demanda por UTIs em Mato Grosso em decorrência da pandemia da Covid-19: situação e projeção para as macrorregiões de saúde.  Nota Técnica. ICET/IGHD/ISC – UFMT: Cuiabá, 2020.